sexta-feira, 19 de julho de 2013

Procuram-se amigos cinéfilos desesperadamente

Li o texto de Ricardo Cota, no site Criticos.com, na semana passada e não me contive. A vontade de compartilhá-lo foi imediata. Mas não podia ser no facebook ou em qualquer outra rede social que não permite expressar o motivo da comoção apropriadamente. Por lá, só mesmo imagens rendem leituras, sempre apressadas. Resolvi, então, publicá-lo aqui.

Gosto bastante de cinema e teatro, a ponto de frequentar as salas quase todos os fins de semana. Às vezes, eu e meu esposo vamos ao cinema e ao teatro no mesmo fim de semana. Para nós, é uma programação padrão. Quando não tem uma opção de lazer que nos cause maior ansiedade, escolhemos teatro e/ou cinema. Quando estamos com preguiça de sair de casa, assistimos a filmes deitados na cama, enrolados no lençol. Mesmo se o filme ou a peça não agradar, o programa em si sempre nos agrada. Comentar sobre o que acabamos de assistir é algo que adoramos fazer. Só lamentamos quase sempre fazê-lo sozinhos.

Temos pouquíssimos amigos que topam curtir o escurinho do cinema facilmente. Para estarmos acompanhados, o filme escolhido deve ser um blockbuster. Se dissermos que vamos à Sala de Arte -- circuito de filmes alternativos, tidos como cult, de Salvador --, não importa a qual filme pretendemos assistir. Ele sempre será chato, monótono, feito para "intelectuais". Certa vez, um colega de trabalho disse que não frequentava a Sala de Arte porque ia ao cinema para se divertir, não para "filosofar". Eu indaguei imediatamente: "Mas por quê não as duas coisas?" Ou, por quê não diversão numa noite e "filosofia" numa outra?

Tal lamento não enseja "superioridade cultural". É muito mais uma queixa de não conhecer pessoas que gostem de arte sem atrelá-la sempre a entretenimento. É óbvio que gosto de entretenimento. Costumamos assistir de blockbuster a avant-garde. Nossa paixão é por cinema. Em nenhum momento desejamos que os outros tenham o mesmo gosto que nós temos. Se gostamos de comédia romântica, por exemplo, assistimos ao gênero produzido por Hollywood, mas também por franceses, ingleses, canadenses, argentinos, etc. Por que se limitar a uma indústria cinematográfica, a uma única forma narrativa, a um único caminho para a fruição? A questão colocada aqui diz respeito a "sair da caixinha de fósforo". Se quiser, estendo a mão. Vem, Alice, queremos sua companhia.




“AMOUR NÃO!”

Por Ricardo Cota

Recentemente li uma colunista, que pessoalmente desconheço, escrever que após assistir Amour numa sessão de segunda-feira à noite foi surpreendida pelos comentários do marido irritado: “por que ver esse filme agora? Você mal acabou de passar por isso? Por que mais sofrer?” Há uns meses atrás, uma querida amiga, no intervalo do ótimo musical metafísico “Quase Normal”, a caminho do baleiro sussurrou-me: "ainda bem que minha mãe não veio”.

Todos estão certos em suas observações.

Tanto Amour, crônica da finitude, quanto Quase Normal, musical da depressão pós-traumática, são obras de arte maravilhosas, de qualidade estética reconhecíveis, ainda que questionáveis do ponto de vista da melhor crítica. Mas a pergunta é: são obras recomendáveis? E, afinal de contas, o que é uma obra de arte recomendável?

Meus amigos de crítica, que a esta altura já estão cascudos, sabem o quanto é difícil responder a pergunta de pessoas queridas, que na maioria das vezes não vivem a experiência artística cotidianamente como nós, mas questionam legitimamente: “e aí, que filme você recomenda?

E quase sempre recomendamos o filme que destrói o fim de semana do sujeito, que amarga o jantar combinado com os amigos. Lembro de um primo que uma vez chegou para mim e disse: “poxa, aquele filme que você recomendou estragou o meu sábado!”

Para nós, críticos e humanos, a questão envolve o conceito de ética. Respondo a este ser que respeito e admiro o que realmente penso ou respondo com aquele ar de presunção: “acho que você não vai gostar”.

Sempre que me vejo diante deste tipo de resposta me identifico com a indignação. “Quem é você para dizer se eu vou ou não gostar de tal filme?” O problema é que o cidadão retorna ainda mais indignado do cinema : “Pô, que merda de filme você me indicou”.

A ex-mulher de um amigo, figuraça, do tipo opinião eloquente, uma vez me olhou à saída de um filme e gritou: “Cotinha, meu querido, gosto tanto de cinema quanto você. Agora, aqui entre nós, nada de Bergman, NADA DE BERGMAN!!!” Nos abraçamos e rimos numa felicidade alienada que jamais esqueço. Ela odiava Bergman; eu delirava com sua sinceridade. Para ela, minha opinião sobre Bergman e merda eram a mesma coisa. Para mim a opinião dela...

Podemos nos confortar com o conceito comum de arte como entretenimento, como couvert da noite que se abre, mas não podemos fugir do poder que a arte tem de, no pequeno gesto do bailarino, no menor solfejo do intérprete, na filigrana da letra da canção, no enredo do samba que não entendi, no argumento do filme, na cena final da peça, expor-nos aos anjos e demônios que nos cercam. Quem não quer passar por isso, que marque o encontro direto no restaurante.

E seja feliz.

terça-feira, 9 de julho de 2013

[Debates #2] Usos do termo "popular"


O segundo debate ocorreu em 24 de janeiro de 2013. Desta vez, o tema escolhido foi "Os usos do termo 'popular'". Iniciei o debate solicitando aos participantes que conceituassem “Festa Popular”. As duas explanações que emergiram convergiam para um evento que tinha participação ativa do povo, sem levar em consideração a classe social. Ana citou a Lavagem do Bonfim como exemplo e contou sua origem. Tratava-se de uma atividade anual dos escravos, que se reuniam em mutirão para lavar as igrejas e as casas dos senhores, que se mudavam para outras residências durante os trabalhos. Portanto, resumia-se à participação dos escravos. Regina Lúcia adicionou que a lavagem virou festa devido às manifestações alegres dos negros, com suas danças e cantorias. Indaguei, então, se eles consideravam a Lavagem do Bonfim como “Festa Popular” por causa de sua origem: era feita pela população menos abastada. Fábio concordou, afirmando que muitas festas de largo deixaram de acontecer porque não tinham relação com uma tradição, “não eram de raiz”, foram criadas na esteira das outras – em alguns casos, pela elite.

Num segundo momento, apresentei imagens de festas, como Boa Morte, Boi Bumbá e Carnaval.  Perguntei se eles as considerariam, uma a uma, como populares. De imediato, instaurou-se uma confusão a respeito da “motivação” das festas. Fábio condicionou o caráter popular às manifestações religiosas, pois, sem isso, estariam mais suscetíveis a desaparecer. “Festa pela festa”, segundo ele, estaria fadada ao esquecimento, como ocorreu com as lavagens da rua 8 de dezembro, na barra, da pituba e de mussurunga. Porém, quando um participante citou a Festa de Reis como um outro exemplo, ressaltei que ela já estaria enfraquecida, com pouquíssima participação. Como se trata de uma festa de cunho religioso, a hipótese de Fábio não poderia ser considerada verdadeira.

O debate ficou polêmico à medida que o carnaval de Salvador era mencionado como festa popular, tanto pelos próprios participantes quanto por mim. A maioria concordou que o carnaval é uma festa popular. No entanto, Arilson ressaltou que ela é, também, hoje, uma festa comercial, porém “feita pelo povo”. Fábio discordou, dizendo que o carnaval deixou de ser popular. Ele argumentou que há muita segregação, que a festa é um subproduto dela própria, “não é mais uma manifestação do povo em si”. Para ele, não há espaço para a espontaneidade, pois as cordas padronizaram e monopolizaram o “pular carnaval”; o folião não se manifesta da forma que quer. Arilson complementou, afirmando que a dinâmica comercial acentuou a segregação – os excluídos socialmente não participam da mesma forma ou intensamente. Os demais contra-argumentaram: Lívia disse que, apesar do pouco espaço, da privatização do espaço público, “todo mundo dá seu jeito de curtir”. Notei que o teor comercial do argumento contrário ao carnaval ser uma festa popular estava diretamente relacionado à ideia generalizada da festa ser, atualmente, feita por e para a elite.

Em seguida, para provocar uma comparação, eles analisaram a imagem do carnaval de Veneza, na Itália. Mesmo sem conhecer a fundo a festa, todos concordaram, inclusive Fábio e Arilson, que “ela pode ser mais democrática que a nossa”, pois os foliões “se manifestam como querem, fazem o querem, quando querem, se reúnem com quem querem, onde querem” e “ninguém vai mandá-los tirar a máscara porque está fugindo do padrão do abadá”. Por correspondência de estilo, a imagem seguinte mostrava o anúncio de um baile de máscaras brasileiro, ainda vigente. Alguns disseram, de imediato, que esta não é uma festa popular, pois é elitizada, se trata de um evento fechado. Fábio retrucou, incitando a dúvida nos demais participantes: “se esta não é festa popular, o trio elétrico é?!”.  

O próximo tópico colocava em questão a existência de vários carnavais dentro do carnaval de Salvador. Todos assentiram. Arilson chamou atenção para a diferença de público entre diferentes localidades (bairros) de um mesmo circuito de desfile de trios. O folião da barra é completamente diferente do folião de ondina, por exemplo. Eu acrescentei que o público de ondina, um mesmo local, é muito diferente: de um lado da rua, embaixo do camarote de Caesar Towers, vê-se um público diferente do que se fixa do outro lado da rua, no canteiro central da avenida. O carnaval tem suas demarcações territoriais.

Um outro ponto utilizado para caracterizar a existência de diferentes carnavais foi o camarote. Arilson disse que é um artifício criado para separar o povo da elite. Eu questionei se o motivo de escolher o camarote era apenas por proteção, se não seria também por questões de status,  por procurar conforto, luxo, serviços mais próximos, quase às mãos. Lembrei-lhes que a caracterização dos foliões de camarote não é igual à dos foliões de rua, apesar de poderem ter o abadá em comum. 

Fonte: Central do Carnaval
 A imagem seguinte apresentada aos participantes exibia uma tela que representava o entrudo, manifestação trazida por portugueses durante o período colonial brasileiro, praticada durante os dias que antecediam a quaresma. A partir da leitura do livro “A História de Ouro do Carnaval Brasileiro”, de Felipe Ferreira pude resumir uma parte da história do Entrudo, enfatizando o caráter marginal que a festa adquiriu quando a elite carioca, com a ajuda do governo local, coibiu sua prática, tida como grosseira, na tentativa de civilizar as festanças e copiar o modelo carnavalesco europeu, especialmente o parisiense e o veneziano. Ironicamente, a festa originara-se da própria elite, era praticada dentro de suas casas. Porém, quando eles começaram a perder o controle da festa, que popularizava-se, tomando as ruas do centro e envolvendo outras camadas sociais, ficaram incomodados. A hierarquia tinha de ser mantida a todo custo. Então, resguardaram-se nos clubes, em seus luxuosos bailes de máscaras, desprezando qualquer outra manifestação que erigisse das ruas. Assim, entrudo e carnaval passaram a ser antônimos.

O carnaval possui a marca da diferença. Nele vê-se claramente as diferenças existentes na sociedade. Desde a sua origem, os interesses da elite econômica são privilegiados, ditando o que é considerado carnaval e a forma correta de frui-lo. O capitalismo indubitavelmente afetou a festa contemporânea, exacerbando as mazelas invisíveis e banalizadas do dia a dia. Dessa forma, o camarote é mais um elemento criado para distinguir (e não segregar) os carnavais, assim como tentavam fazê-lo contra o entrudo. Apesar de aberto a todos – vende-se indiscriminadamente, sendo apenas necessário pagar a quantia pedida –,  tudo naquela estrutura restringe o acesso a um público específico. Os foliões que por ali passam ostentam, com suas vestimentas limpas, personalizadas, com seus corpos majoritariamente brancos, atléticos, cobertos de assessórios de valor – poucos arriscam usar relógio num bloco ou na pipoca –, mostram-se orgulhosamente diferentes. No entanto, os que ali não estão também desfrutam o carnaval. Se o espaço é reduzido, dando a empresas permissão de privatizar os espaços públicos, outras alternativas se abrem para aqueles que dele são retirados. Novos modos de brincar o carnaval são criados ou mantidos.

Por diversas vezes, a palavra “povo” foi utilizada no debate. Em algumas ocasiões, de forma a contradizer seu uso anterior. Até discutirmos o carnaval, “povo” representava toda a população;  após instaurarmos a polêmica envolvendo esta festa, foi então dito que o camarote distancia o povo da elite. Deixei a palavra em negrito neste relatório para explicitar esta situação. O uso de “povo” para se referir a uma parcela específica da população relaciona-se ao uso do termo “popular”. Quando se utiliza este termo, evoca-se, no primeiro instante, algo voltado para o público de baixa renda. Moradia popular, bairro popular, ingressos a preços populares e farmácia popular, banco do povo tem muito em comum. Pode ter uma conotação de abertura para todos os “cidadãos”. Porém, se assim o fosse, por quê manter a diferenciação de preço e de localização, por exemplo, nas casas de espetáculo para os ingressos destinados ao público de baixa renda? Por quê não reduzir os ingressos a um valor que o torne acessível a todos? Vários outros exemplos podem ser extraídos do cotidiano para reforçar essa teoria arraigada na nossa cultura. E esta, é claro, não foge à regra: repetimos à exaustão que precisamos valorizar a nossa cultura popular.

sábado, 29 de junho de 2013

[Curtas #3] A Ilha

Este curta-metragem de animação, produzido em 2008, conta a história de Edu que, assim como nós, é morador de uma metrópole brasileira e sofre diariamente com os problemas de mobilidade urbana. De lá para cá, a situação não melhorou. Diria até que piorou. As políticas de aquecimento da economia interna privilegiaram as empresas automobilísticas, diminuindo impostos que permitiram a venda de carros novos a preços mais baratos. As soluções para os engarrafamentos sempre buscam alargar ou criar novas vias de circulação de veículos, principalmente particulares. Os grandes centros transformam-se em grandes emaranhados de asfalto, com viadutos cada vez mais arrojados. Torna-se imperativo ter carro, não só pelo incentivo ao consumo, mas para a locomoção mais rápida e confortável. O transporte coletivo é relegado e entregue às companhias privadas que visam apenas o lucro. As manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e metrô que eclodiram em São Paulo e se espalharam para outras cidades brasileiras mostram o auto nível de saturação que a mobilidade urbana atingiu. O curta é dirigido por Alê Camargo e produzido por OZI Escola de Audiovisual de Brasília.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

[Copa #1] A FIFA brinca de amigo oculto

Se você já participou de amigo oculto no fim do ano, na época de Natal, já deve ter percebido que ao menos um participante sai insatisfeito com o presente recebido. Sabe aquele parente, amigo ou colega sem noção que resolve presentear o azarento sorteado com um porta-retrato, um pacote de cuecas, uma caixa de chocolates sortidos, etc? E quando cada um divulga uma lista de presente que deseja ganhar e o tal amigo ignora? Pois é, amigo oculto é que nem futebol, uma caixinha de surpresas. Não dá para confiar na técnica e nas regras do jogo. Surpresas acontecem com frequência. E a FIFA, a maior entidade futebolística do mundo, representa o nosso amigo espírito de porco. Para a Copa das Confederações, só recebemos dela presentes de grego.


Afora as exigências cabulosas, que vão de encontro até às leis do país-sede, quem tentou e/ou conseguiu comprar ingressos para a Copa das Confederações deve ter sido pego de surpresa. Nada de filas, horas em pé aguardando sua vez, sistema que sai do ar, etc. Oportunidade igual para todos os torcedores do mundo. Apenas um canal de vendas foi disponibilizado: a Internet. Até aí, tudo bem. Mas foi só a venda começar para chover problemas.

Na pré-venda de ingressos para clientes Visa, o sistema apresentou lentidão, não suportou a quantidade de acessos simultâneos. O processo de venda era complexo, composto por seis etapas. E muitas informações importantes foram omitidas. O valor do ingresso para as partidas era dividido em categorias, cada qual correspondendo a um setor da arquibancada. Quem está acostumado a comprar ingressos para shows e peças de teatro, por exemplo, sabe que o valor diminui ou aumenta de acordo com a posição da poltrona, a melhor visibilidade que se tem do espetáculo. Mas a FIFA não disponibilizou o mapa de assentos dos estádios. Sequer um mapa apenas com as áreas reservadas para cada categoria. Não era possível saber a diferença entre elas além do custo cobrado. O público foi obrigado a comprar no escuro.

Também não foram disponibilizados ingressos de meia-entrada para estudantes e idosos. Estes só foram vendidos na terceira fase de vendas, mediante sorteio (!!!). O torcedor acessava o site, preenchia um cadastro e solicitava uma quantidade limitada de ingressos, entre eles a meia-entrada. Posteriormente, ele recebia uma mensagem da FIFA autorizando a compra. Onde já se viu isso?

Para comprar ingresso, independente da fase, tinha que criar um cadastro, mediante preenchimento de formulário. Entre as informações solicitadas, estava o CPF. Este era validado e, por incrível que pareça, o algoritmo de validação estava errado. A minha identificação e a de outros colegas de trabalho apresentou irregularidade no dígito verificador. O cadastro foi realizado após muitas tentativas. Será que testaram o sistema antes de disponibilizá-lo aos usuários?

Agora, o pior problema de todo o processo de venda de ingressos. No ato do pagamento, após informar os dados do cartão de crédito e confirmar a operação, o sistema apresentava muita lentidão. Aparecia a mensagem de processamento durante mais de um minuto. Algumas pessoas tentaram retornar para a tela anterior para tentar novamente. E conseguiram. Porém, o pagamento foi debitado do cartão duas vezes, uma vez para cada tentativa, mesmo que a primeira não tenha tido confirmação da compra. Isso repercutiu nos jornais. E qual foi a solução da FIFA? O espectador deveria enviar e-mail e aguardar a resolução do problema. Aqueles que não tinham tentado comprar ingresso novamente (debitado duas vezes), tiveram que esperar para saber se iriam ter ingressos.

É de se espantar que problemas como esses ocorram, pois se trata de um evento promovido pela entidade máxima do futebol, acostumada a produzir grandes eventos em todo o mundo. Em agosto, começa a venda de ingressos para a Copa do Mundo 2014. Será que os problemas persistirão? Além disso, as próximas Copa das Confederações e Copa do Mundo serão na Rússia, em 2018. Vale a pena acompanhar para verificar se os  mesmos desmandos e os problemas técnicos dignos de uma empresa amadora se repetirão.

* Esta é só a primeira de uma série de publicações sobre a Copa.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ver não é olhar


É preciso ter tempo para ver os rostos e a paisagem. Para se evidenciarem a força e a atmosfera que deles emanam. O drama interior das pessoas, a serenidade dos lugares. Tudo aquilo que não se estampa de imediato. [1]

A elaboração artística consiste em transformar o espaço do plano pictórico em espaço expressivo. [3]

A percepção do outro depende da leitura dos seus fenômenos expressivos dos quais o olhar é o mais prenhe de significações. [3]



Os olhos recebem passivamente, com prazer ou desprazer, contanto que estejam abertos, verdadeiras sarabandas de figuras, formas, cores, nuvens de átomos luminosos que se ofertam, em danças e volteios vertiginosos, aos sentidos do homem. E o efeito desse encontro deslumbrante pode ter um nome: conhecimento. [3]

A cada quebra, uma nova face fica exposta, refletindo também um novo ângulo. [4]


Diante do que vemos, são espelhos que nos olham. [4]

Cada vez que se olha para uma forma expressiva, o próprio olhar encerra um momento de avaliação, de referência a si próprio, de referência a ritmos e tensões de espaços vividos e reencontrados na imagem. [3]

Quanto mais rápido o movimento, menos profundidade as coisas têm, mais chapadas elas ficam, como se estivessem contra um muro, contra uma tela. [2]

Referências

[1] PEIXOTO, Nelson Brissac. O Olhar do Estrangeiro. In: NOVAES, Adauto. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. P. 361-365.


[2] PEIXOTO, Nelson Brissac. Ver o invisível: a ética das imagens. In: NOVAES, Adauto. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. P. 301-319.

[3] OSTROWER, Fayga. A Construção do Olhar. In: NOVAES, Adauto et al. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. P. 167-181.
 
 [4] CAMPOS, Elisa. Planos de Clivagem: Uma Abordagem sobre o Olhar. In: Concepções contemporâneas da arte. Belo Horizonte: UFMG, 2006.













quinta-feira, 6 de junho de 2013

Apenas mais um dia no Fórum Ruy Barbosa

Último dia do mês de fevereiro deste ano não bissexto. Desejávamos ter sido quatorze do mesmo mês, mas o carnaval e o recesso judiciário não permitiram. Fazia muito sol, como de costume em Salvador. Era também a segunda e a última manhã de quinta-feira dedicada a casamentos, como acontece todos os meses. Como era de hábito, os noivos e as noivas, cuja cerimônia fora agendada para a mesma data, estavam presentes, vestidos a caráter. Alguns até mais do que necessário. As mulheres vestiam-se de noivas. Algumas tinham até damas de honra. Todo a teatralização da cerimônia cristã. Tratavam-se de pessoas de baixo poder aquisitivo, que não podiam arcar com os altos custos de uma cerimônia religiosa. E, claro, existiam aqueles que preferiam apenas o registro civil. Encaixamo-nos neste último perfil. Desconsidero aqui a crítica quanto ao fato da maioria das religiões e templos não concordarem com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, já que somos ateus. Não faríamos uma cerimônia religiosa, de qualquer forma. Apesar disso, o processo contempla aspectos do ritual cristão, para consolo dos que não puderam estar num altar. Inicialmente, ficam os casais e suas testemunhas (padrinhos?) sentadas num espaço exclusivo, aguardando ser chamados pelo microfone. O casal pode requerer uma sala privada com a presença apenas de seus convidados, pagando uma grande quantia a mais. Optamos pelo Salão Nobre do fórum, como os mais de vinte outros casais, um casamento coletivo. A tabeliã do cartório no qual demos entrada no pedido de união confirma nossos nomes, nos pergunta se temos alianças para trocar. Todos fazem o mesmo, sem distinção. Alianças entregues, assinamos o registro civil. Em seguida, as testemunhas o fazem. A Juíza chega e o juramento é feito olhos nos olhos. Após o "sim" e as alianças devidamente colocas no dedo anular da mão esquerda, é dado espaço para o beijo. Como de praxe, ela homologa a união e entrega de imediato o registro, o qual mostramos orgulhosos para amigos e familiares presentes no Salão. Na área externa, em meio às parabenizações costumeiras, relatos da surpresa causada aos convidados dos demais noivos. Os comentários variaram de notória desinformação -- "Não sabia que gays já podiam se casar" -- ao trivial preconceito -- "Devia ser numa sala separada" --, quando não as duas coisas juntas. Ouvindo tal comentário de desinformação da senhora sentada na fila posterior, minha mãe olhou para trás e disse, categoricamente: "Pode, claro que pode. Tanto pode que ele está lá. É meu filho". Uma sessão de fotos tendo o fórum como pano de fundo seguiu-se ao casamento. Horas depois, todos nos encontramos numa recepção intimista. Optamos por comemorar a união com um almoço no pequeno restaurante que mais frequentamos na cidade, com um cardápio preparado para a ocasião. Convidamos somente pessoas íntimas para partilhar o momento. Ainda assim, não conseguimos convidar todos, infelizmente. Mas não queríamos festa grande. Recepção para duzentos ou mais convidados é para quem gosta de mau olhado e de estar com gente hipócrita. A "sociedade" podia (e foi) notificada do casamento através das redes sociais. É por lá que mantemos "contato" com a maioria das pessoas mesmo... A lua-de-mel foi na cidade que fizemos a primeira viagem juntos e da qual gostamos bastante: São Paulo. A vida de casado ainda não começou de fato. Aguardamos ansiosos a entrega do apartamento comprado em 2009. Feito isso, e após uma digníssima reforma, inauguraremos uma nova rotina em nossas vidas, não muito diferente da que já possuímos, mas com maior intensidade.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

[Debates #1] Cultura x Arte

Semestre passado, eu cursei a disciplina Estudos das Culturas, com o professor Carlos Alberto Bonfim. Ela é uma disciplina obrigatória do currículo de Humanidades. Porém, foi possível cursá-la graças à obrigatoriedade de cumprir duas disciplinas humanísticas, um dos aspectos que definem a interdisciplinaridade dos cursos do IHAC (Instituto de Humanidades, Artes e Ciências), da UFBA. A metodologia aplicada à disciplina consistia em discutir temas diferentes em cada aula, tais como sexualidade, juventude, drogas, música e interculturalismo. Como avaliação, tive que promover três debates e um artigo final, abordando algum ponto dos temas debatidos em sala. Como resultados, publiquei no blog "A Cultura do Vazio". Agora, disponibilizo os debates, todos eles ocorridos na empresa em que trabalho, com a participação de colegas*.


O primeiro debate ocorreu em 19 de dezembro de 2012. O tema escolhido foi "Conceito de Cultura". Iniciei o debate solicitando aos participantes que escrevessem numa folha de papel o conceito de Cultura e depois o lessem em voz alta, podendo, neste momento, incrementá-lo. Dois deles me chamaram mais a atenção: um remetia ao conceito tradicional de Cultura, tal qual me foi ensinado no primeiro grau (atual ensino fundamental), como “um conjunto de tradições, costumes passados e construídos por determinada comunidade ao longo de sua cronologia”; o outro associava a Cultura a práticas (tidas consensualmente) da arte, como “qualquer forma de expressão artística da sociedade”. Em seguida, pedi que eles falassem sobre a origem de seu conceito e como ele foi formado. Diversos pontos merecem destaque, até adentrarmos na discussão sobre o limiar entre Arte e Cultura.

Ana  afirmou que a origem de seu conceito surgiu de sua percepção de que a formação cultural do indivíduo vem da instrução (educação formal), da educação familiar, responsável pela formação do caráter, e da relação com a comunidade em que vivemos. Indaguei se eles seriam núcleos individuais, sem interação entre si, e ela respondeu que uma pessoa que não tem família – tive a impressão de se tratar de conceito mais tradicional de família – não necessariamente não terá cultura, pois terá os demais elementos para contribuir para sua formação. Esse complemento reforçou a ideia de que não há, ou há muito pouca, interação entre esses núcleos formadores da cultura no indivíduo, sendo ele responsável apenas por absorver as informações de cada um e construir sua identidade. Além disso, ficou a dúvida, após rever o debate, se tal indivíduo ficaria desprovido de caráter ou se seria mais vulnerável a não tê-lo por não ter tido a “formação cultural familiar”.

Roberto reafirmou que entende Cultura como uma manifestação individual, podendo uma pessoa participar de uma ou mais culturas (sic) diferentes e citou, como exemplo, a culinária. Sendo assim, ela surge sempre do indivíduo para o coletivo. Lívia ressaltou que “apesar de ouvir muito que música, teatro e outras expressões artísticas são cultura, ainda não tinha parado para pensar numa definição”. Notei, por essas duas últimas explanações, que o conceito estava bastante atrelado ao produto de manifestações públicas, sendo estes citados constantemente durante o debate. Tendo sido as expressões artísticas o alvo de vários exemplos, a discussão tomou o rumo, decidido naturalmente pelos participantes, da diferença entre Arte e Cultura, sempre evidenciando uma (des)qualificação dos elementos a partir de seu 'conteúdo'.

“No artístico, há um limiar entre o que é entretenimento e o que é cultura”. A ideia foi complementada com dois exemplos: músicas produzidas na Bahia, nas quais “não se vê conteúdo” e com o argumento de que existe “diversão sem conteúdo”; e “peças de teatro que fazem rir com o fácil, com o banal”, salientando que não se tratava de falta de cultura (sic), pois referia-se àquela obra enquanto arte. Vê-se uma confusão entre os conceitos de cultura e arte, sendo a última qualificada como algo superior, detentora de um 'conteúdo intelectual' produzido por um indivíduo 'bem educado'. Perguntei a todos se arte necessariamente precisa ter um conteúdo. Neste momento, lancei a diferença entre Cultura e Arte de Teixeira Coelho, para o qual eles são opostos complementares: cultura é a regra, a arte é a exceção.

Neste momento, também, dirigi-me ao computador, e exibi a imagem de uma das obras mais conhecidas do mundo: o quadro Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci. Em seguida, provoquei os participantes, indagando se se tratava de uma obra de arte. Houve um silêncio momentâneo, pois todos analisavam a obra utilizando o conceito anteriormente passado. Por isso, não consegui obter a resposta original para a provocação. No entanto, criei neles uma reflexão. Mesmo tendo afirmado existir diversos outros conceitos de arte, os participantes fixaram-se no conceito transmitido, alterando de imediato a sua opinião. Então, complementei: como podemos considerar a Mona Lisa como obra de arte (ou não) sem conhecer o contexto em que foi produzida? Imediatamente responderam que, agora, usavam o conceito de arte que eu havia passado, que na época em que foi elaborado o quadro poderia ter sido considerado uma obra de arte, mas que já não representa mais. Diante a inflexibilidade no uso do conceito, tentei buscar o motivo para considerarmos, de uma forma geral, no senso comum, a Mona Lisa como uma obra de arte. Eis o ponto crucial do debate.
  • Diversas respostas mostraram como o conceito de arte foi desenvolvido:
  • Pela história do autor, disse um colega.
  • Porque alguém estudou sobre isso e disse...
  • Porque ela vai estar num “museu de arte”, disse outro.
  • É uma convenção, emendou.
  • Porque pagaram não sei quantos milhões nessa obra, disse outra, por último.
Levantei, então, a questão de quem seria A Gioconda, de qual foi o intuito da pintura, “uma mera encomenda?”. Expliquei que naquela época a aristocracia costumava encomendar quadros aos pintores famosos para retratá-los fielmente, mostrar e ostentar sua posição social. Não poderia ter sido este o intuito? Sendo assim, o quadro pode ter passado anos pendurado numa parede. Por que considerá-lo um expoente da Arte tempos depois?

As respostas dadas pelos participantes à minha provocação refletem a origem cultural do conceito de Arte, não podendo distanciá-la, portanto, da Cultura. Pelo contrário, considero Arte como produto da Cultura. Ao perpetuarmos as considerações de especialistas da arte, críticos ou historiadores, e homologarmos as suas instituições (museus, galerias, etc) e o seu mercado, utilizamos aspectos culturais criados com o passar do tempo para defini-la. E, assim, continuamos repetindo tais convenções sem questioná-las, sem buscar sua origem. Com isso, também, refletindo a divisão sócio-econômica típica da época atual, tendemos a hierarquizar os produtos simbólicos. Não nos contentamos em criticar seu conteúdo, duvidando da sua 'qualidade' – direito inquestionável, vale ressaltar, pois ninguém é obrigado a gostar de tudo que se produz –, mas construímos subcategorias e lá depositamos os produtos 'abaixo da média'.

Obra "A Fonte", de Marcel Duchamp

 Apresentei, então, a obra A Fonte, de Duchamp, e expliquei a sua representatividade, seu significado para a Arte. Indiquei que, para a ruptura obtida pelo movimento artístico, uma obra não precisa estar envolta de significados, mas de sensações. A cultura costuma nos dizer o que é e o que não é arte; nos dizer o que é ou o que não é uma obra-prima. No entanto, a obra, enquanto produto simbólico, só existe devido à interação entre o autor e o observador. Ambos são responsáveis por significar os objetos, ambos fazendo parte, portanto, do processo de criação, que é ininterrupto. A obra tem, dessa forma, uma criação coletiva. É um produto da Cultura.

* Todos os participantes autorizaram o compartilhamento do debate em vídeo.